domingo, 14 de Fevereiro de 2010

O PERDÃO, A MELHOR DAS CURAS


ARTIGO SOBRE O PERDÃO, Editado na revista ZEN, 2009.

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DE VERA FARIA LEAL
 
O PERDÃO, A MELHOR DAS CURAS
 
 
Meditar sobre o perdão é fazer uma viagem ao seu passado, visitar os recônditos mais escuros da memória, convidar fantasmas antigos a revelar a sua condição na sua mente. É uma reflexão profunda acerca de tudo o que aprendeu sobre o significado da Vida. O perdão conduz sempre ao sentido profundo da vida.
 
Há pessoas que não conseguem perdoar uma desconsideração de um amigo, há pessoas que perdoam o abandono dos pais. Há pessoas que chegam a perdoar aquilo que antes julgavam impensável e há aqueles que não conseguem reunir o amor-coragem necessário para se libertarem das mágoas do passado e recomeçar mais leves. Algumas pessoas têm tanta Vida dentro de si, que o perdão nelas parece uma consequência natural de quem são: abundância de Vida. Nessa plenitude de Ser, elas conseguem viver o perdão, não como algo que não era suposto acontecer, mas como uma jóia incrustada nas dobras da sua alma. A experiência do perdão, como a da vida, é absolutamente pessoal e única. Quanto mais unificados estamos nos nossos conflitos internos, maior a capacidade de perdoar. Quem melhor consegue manter os pensamentos positivos, é quem compreende muito bem o poder do pensamento e da palavra. Do mesmo modo, quem melhor consegue perdoar, é quem compreende melhor a verdadeira natureza do perdão.
 
Porque acontecem coisas más às pessoas boas?
 
Porque invariavelmente, nos acontecem coisas “injustas” na vida, questionamo-nos muitas vezes com amargura: porque é que acontecem coisas más ás pessoas boas? Em minha opinião, não basta uma convicção moral forte para sustentar a “lógica” do perdão, quando nos deparamos com a “falta de lógica” dos genocídios horrendos, do holocausto, das chacinas de inocentes. A moral e a lógica pouco ou nada podem, perante uma alma gravemente despedaçada. A superfície da vida, sob a forma do drama do mundo, está constantemente a remeter-nos para a essência, o invisível, o eterno. No palco da vida surgem-nos actos fragmentados de uma peça onde contracenamos com diversos outros actores e onde cedo nos habituámos às personagens do herói e do vilão. Alguns “escolhem“ ser os bons da fita, outros os odiosos. Nunca é uma escolha totalmente consciente, mas não importando de que lado da equação escolhemos estar, invariavelmente a mesma dose de oportunidades e de injustiças ocorrem a vítimas e a carrascos. E elas ocorrem as vezes necessárias para nos despertarem para a necessidade de sairmos gradualmente de uma visão fragmentada de nós mesmos e por inerência, do mundo, para irmos conquistando uma perspectiva mais unificada da condição humana, naturalmente dividida e dualista na dimensão da matéria onde existimos. O papel que escolhemos à partida protagonizar nas nossas vidas -seja o da vitima sofredora, seja o do cruel agressor - não é garantia de impunidade das agruras da vida. É um ponto de partida de onde devemos caminhar rumo à unidade essencial, ao alcançar do Self, o nosso Eu verdadeiro, essencial.
 
Quando ainda somos aprendizes ou aspirantes a este ofício de viver, imaturos no nosso conhecimento espiritual da Vida, o mundo ensina-nos a ver a preto e branco. O bem ou o mal, a luz ou a sombra, a justiça ou a injustiça. De inicio, sentimo-nos reconfortados com esta dualidade aparentemente tão convincente. Os problemas surgem quando a vida deixa de ser aquilo que esperávamos e ficamos primeiro confusos e depois defraudados quando verificamos que afinal, também acontecem coisas más às pessoas boas, assim como acontecem coisas boas àqueles que nos magoaram tanto.
 
A Vida, a seu tempo, desafia os nossos conceitos, preconceitos, valores e crenças, porque ela tem um curriculum invisível e por isso mesmo misterioso para nós. O perdão, quando reflicto mais profundamente nos seus mecanismos, afigurasse-me como um mistério - exactamente como a Vida. Ao invés de querer decifrar um mistério maior que eu própria, mas do qual faço parte, parece-me mais proveitoso aderir a ele. Como se adere à vida? Aceitando-a, em vez de lhe resistir, aprendendo com esse grande Sim a tudo o que ela nos oferece, a dançar com ela a dança da sabedoria. Como se adere ao perdão? Aceitando os seus tempos – sim, ele tem estações como a natureza, pois é um processo, um caminho em si mesmo – e aceitando as suas bênçãos, sem resistir à maravilhosa transformação que é a sua dádiva. Num mundo considerado a priori facilmente injusto, o papel do perdão é insubstituível. Neste quadro, só o perdão pode restituir a esperança de uma nova vida.
 
Quando é que temos que perdoar?
 
E se uma parte de mim ainda está magoada? E se ainda me sentir dividido entre a convicção moral de perdoar e a ferida emocional que sinto não sarada? E se o outro continuar a desafiar-me para eu não perdoar?
 
Há pessoas que dizem: quem sou eu para lhe perdoar? Querendo mascarar com uma falsa humildade, a sua real incapacidade de perdoar o agravo. Quando dizemos: perdoo mas não esqueço, também estamos a fugir a uma verdade maior, que é a necessidade de sermos autênticos connosco mesmos e de aceitarmos que não estamos ainda preparados para esse perdão. Há muitas vezes, um amargo-doce na dor que o ressentimento provoca. Se nos habituarmos às desconsiderações e à rejeição, esta dor adocicada torna-se um alimento e um vicio. Poderemos passar a viver nos relacionamentos um padrão inconsciente de maior ou menor masoquismo, de cujo circulo vicioso será trabalhoso sair. Temos que nos libertar da necessidade, muitas vezes compulsiva, de sofrer, que nos sabota e nos faz viver sistematicamente rodeados de pessoas e ambientes emocionalmente tóxicos. Quando não se perdoa, perde-se a oportunidade de alcançar a inocência que é um atributo espiritual de quem aceitou passar pelos abismos da sua dor, do seu vazio e do seu medo e renasceu para o verdadeiro poder interior: o poder de transcendermos as ilusões do ego e de nos identificarmos com a nossa divindade imanente. Não perdoar é insistir em ser quem já não somos, é insistir no sofrimento.
 
O ego em nós sente-se injustiçado, ofendido, agredido. Ao afastar o perdão, o ego mantém a sua frágil e ilusória noção de auto-importância: faz-me sentir mais importante o facto de não perdoar quem me humilhou. Na verdade, o inverso é que é real. O espirito em nós ensina a grandeza da renuncia: renuncia ao ressentimento causado pelo outro, à necessidade de nos justificarmos, de nos sentirmos validados pelo orgulho. Perdoar é renunciar à vingança auto-justificada: para podermos perdoar, temos que sair do papel de vítimas e decidir assumir a responsabilidade pela nossa própria paz interna e progresso. Só saindo gradual, mas convictamente da postura de vitima podemos descobrir soluções mais criativas para os nossos problemas e conflitos. As soluções mais criativas são normalmente as que resultam de uma percepção curada pelo perdão. Quando perdoamos, dá-se uma libertação de energia que antes estava adjudicada à manutenção da mágoa, energia essa que podemos utilizar criativamente para construir a nossa vida. O perdão é uma escolha pessoal, que não depende da outra parte com quem há o problema. Não depende se o outro aceita, merece ou compreende o nosso perdão. Não depende do facto de o outro estar vivo ou estar distante. Na medida em que formos capazes de perdoar ofensas menos gravosas, podem surgir situações mais profundas e complexas para aceitarmos e nos pacificarmos. Por vezes a vida começa logo com situações extremas em que, ou se adia o perdão e simplesmente se sobrevive, ou nos transformamos logo aí nas vítimas ou nos agressores deste mundo. O nível mais profundo de perdão é quando perdoamos verdadeiramente a quem nos humilha. Sempre que trabalhamos uma virtude espiritual, produz-se em nós uma alquimia interior que estimula novas qualidades espirituais em nós, como por exemplo, a longanimidade, a paz, ou um sentido profundo de unidade interna. É sempre tempo de perdoar. Não espere até que a Vida o vença pelo cansaço, ou através de uma perda qualquer.
 
NOTA DA AUTORA: SE QUISEREM PODEM DIVIDIR O ARTIGO EM DUAS PARTES, MESMO AQUI.
 
Reflicta por momentos sobre o que os seus pais lhe ensinaram acerca do perdão. É oriundo de uma família que praticava activamente a compaixão, ou o simples pensar na palavra lhe traz à memória omissões, silêncios, contradições, entre o que se dizia e o que se fazia? Foi a falta de perdão fatal para algum dos seus pais ou familiares? Está a ser fatal para si, agora?
 
O orgulho que nos impede de perdoar as nossas relações, familiares ou outras, radica numa enorme falta de amor próprio, num défice de identidade, num vazio interno que tentamos esconder “defendendo-nos” por vezes raivosamente dos outros. Saiba que os padrões familiares – de ressentimento, carência, etc. - que se passam de geração a geração, não são cadeias de fatalidades. Podemos mudar as nossas crenças sobre a vida e assim, mudar o nosso destino. Nós não somos as nossas circunstâncias; somos os co-criadores do filme da nossa vida. Consegue imaginar outra história para si? Consegue visualizar um outro guião, onde as suas mágoas passadas possam ser transformadas em cicatrizes curadas pelo amor da sua alma? Para que o perdão seja efectivo e autentico, não precisa tentar remover até as cicatrizes da dor do passado. As cicatrizes saradas pelo perdão são pérolas bordadas no manto da Vida: esse bordado é o guião oculto da sua existência, sabedoria feita da Alquimia do seu Ser; o manto, é para ser envergado com dignidade, como envergamos as rugas e os cabelos brancos. Quando aprendemos a envergar com dignidade e desprendimento tanto as derrotas como os êxitos, então as circunstâncias deixarão definitivamente de nos definir, e pela magia do perdão e pela sabedoria nas atitudes, teremos encontrado o caminho da verdadeira liberdade interior. O perdão muda o nosso destino.
 
O perdão é o dharma, é aquilo que estamos destinados a SER. O perdão é um dos instrumentos de auto-superação mais poderosos que conheço. As Leis universais dizem que vivemos para reconhecer a nossa perfeição inerente, imanente. O perdão restaura essa ordem interna: restaura a paz no nosso ser.
 
 
 
O perdão a nós mesmos
 
Esta é talvez, a maior dadiva de amor que se pode dar a si mesmo. Se não se perdoar a si mesmo, como pode esperar atravessar a vida com um coração aberto e grato? Energicamente, a culpa emite vibrações densas, pesadas e incoerentes, ou seja, desorganizadas. Quando há vida, as nossas células estão organizadas em sistemas coerentes. Na morte as células desorganizam-se e a unidade perde-se. As emoções energicamente mais densas como a culpa, o medo, a vergonha e a raiva, empurram-nos para a prisão onde a vida agoniza. As emoções que têm poder de nos acrescentar Vida, Paz e sabedoria nos nossos relacionamentos, são as que estão associadas à bondade, à fraternidade, à longanimidade, ao altruísmo. É quando mais fragilizados estamos, que mais precisamos do milagre do perdão, quase sempre a nós mesmos primeiro. Algumas sugestões de afirmações para pensar, repetir alto e/ou escrever:
 
Eu perdoo-me por ter fracassado
 
Perdoo-me por não ter o peso/saúde/parceiro/emprego que gostaria
 
Perdoo-me por me ser difícil aprender com os erros
 
Perdoo-me por perder a cabeça facilmente
 
Perdoo-me completamente pela minha _______________(termine a frase)
 
 
 
O perdão e a saúde:
 
Tenho verificado, trabalhando há dez anos com milhares de pessoas que a sociedade não nos prepara para o perdão. Muitas vezes, as únicas referencias que temos são as religiosas mas, num quadro social onde os valores éticos e morais decorrentes da tradição religiosa também se têm transformado, parece que cresce o número de pessoas que se sentem “entregues a si mesmas” na Vida. Aprendendo (ou não) com os próprios erros, com a doença e a frustração crescentes, começam a sentir que precisam de novas e mais consistentes referências para viver com maior liberdade, paz interior e saúde emocional, mental e física.
 
Das minhas investigações sobre o trabalho académico realizado com este tema, descobri que cada vez mais psicólogos e investigadores universitários se interessam e estudam os efeitos psico-físicos do perdão. Inúmeros estudos realizados têm demonstrado e/ou sugerido uma relação entre sintomas físicos/doenças como - hemorragias vaginais por fibromiomas, algumas doenças cardio vasculares, cancros, depressão, ansiedade, tensão arterial elevada, úlceras de estômago - com sinais de ira reprimida, mágoas profundas, raivas crónicas, incapacidade de perdoar. Não perdoar é verdadeiramente tóxico para a alma e o corpo. A solução estará, por um lado, numa educação social para o perdão, capaz de gerir o stress e de estimular o nosso potencial de resolução de conflitos. Mas não se trata simplesmente de perdoar para colhermos unilateralmente o beneficio de menos stress e mais saúde integral. Trata-se, sobretudo, de uma real entrega onde, se pelo menos não conseguirmos ainda querer o bem do outro, pelo menos já conseguimos libertá-lo do nosso rancor libertando-nos do nosso desejo de vingança.
 
Perdoar significa deixar de considerar o outro com desprezo ou ressentimento. O perdão autêntico é compassivo e deixa de lado toda a ideia de vingança. Não se trata sequer de argumentar sobre se a vingança é justa ou errada; trata-se de saber que ela é uma reacção, ou seja, dá continuidade a uma cadeia de eventos nascida de uma desarmonia. A reacção perpetua o erro, aumenta a nossa responsabilidade e o nosso fardo. É activada pelo nosso lado sombra, pelo nosso instinto de sobrevivência, violência, impotência e vazio. Quando numa qualquer circunstancia agimos em vez de reagir, estamos a criar uma história nova e a atribuir novos papeis aos personagens. Estamos a criar um universo novo de possibilidades, estamos activar uma dinâmica de vida nos nossos relacionamentos. Perdoar é agir a partir da nossa essência luminosa, consciente, verdadeira.
 
O perdão é um processo
 
O perdão não pode ser apressado, não pode ser artificial, porque nada disso é perdoar. Só é perdão quando nos sentimos transformados pelo acto de perdoar. É uma alquimia profunda, um milagre – porque abriu as portas para uma nova percepção, renovação e possibilidade que antes não vislumbrávamos.Trabalhando com milhares de pessoas ao longo dos últimos dez anos, descobri que não se apressa o perdão nem se ajuda necessariamente alguém a perdoar uma dor profunda, falando-lhe das virtudes do perdão. Se sentir que este pode ser o seu caso saiba, no entanto, que pode sempre pedir por mais consciência e pela capacidade de ver a situação para além do seu ponto de vista, apenas. Pode treinar a sua visão interna, desenvolver a intuição ou mente superior, e terá assim gradualmente, maior acesso a um estado de unidade a partir do qual o perdão será cada vez mais natural e profundo.
 
 
 
Quando perdoamos, há uma transmutação alquímica em todo o nosso ser - físico, mental, emocional – que se traduz num acréscimo de energia física e numa elevação da nossa qualidade vibratória. O perdão – assim como outros atributos do caminho espiritual – produz uma mudança integral: na qualidade e na direcção dos nossos pensamentos, numa maior capacidade de auto-domínio mental, na leveza e iluminação das nossas emoções, na cura do nosso corpo físico, na criação de novas reservas de energia, uma vez que as emoções negativas desbloqueadas são alquimizadas em novos espaços de consciência, que agora podemos usar mais sabiamente. Quanta mais Luz estivermos capazes de receber, sob a forma de aceitação da vida tal como é, mais Luz nos será acrescentada. Quanto maior a capacidade de manter a confiança quer na adversidade, quer nos momentos lisonjeiros, quanto mais nos rendermos ao Amor Maior praticando no quotidiano o perdão e a paz interna consistentemente, mais Luz nos será acrescentada. A quem tem a capacidade de usar os dons e as virtudes com quem nasceu, mais lhe será dado, mais dons, mais sabedoria, mais Luz!
 
 
Lisboa, Agosto 2009