SÓ PARA HOMENS… E MULHERES QUE OS QUEREM COMPREENDER MELHOR

venusmarte - Cópia

Foi-me pedido que escrevesse um pouco sobre o Curso MISTÉRIOS DO MASCULINO, que estou a fazer na Maia, no Espaço Portal dos queridos Filipa e Mário. Trabalhar como facilitadora de um grupo só de homens – onde tenho empresários, terapeutas, contabilistas, engenheiros, um padre – tem sido de uma enorme riqueza para mim. Este trabalho foi-me pedido por eles, e provavelmente sem saberem bem ao que iam, FORAM. Alguns diziam-me: quero entender melhor as mulheres; quero unir dois mundos aparentemente irreconciliáveis dentro de mim. Vera, “porque é que, quando somos duros e ausentes, as mulheres se queixam e depois, quando começamos a trabalhar-nos e a assumir a nossa sensibilidade e a expressar necessidades as mulheres se queixam e querem que sejamos mais viris”? Um deles, homem dos seus 65 anos, dizia que chorou mais em duas horas de curso, do que se permitiu chorar publicamente em toda a sua vida; que deu mais beijos a homens durante as práticas e vivencias do Curso, do que ao seu pai e filhos homens, durante toda a sua vida.

 Acredito que sou para eles, um espelho que os ajuda e estimula ao encontro da dimensão feminina de Si mesmos, às profundezas da sua Psique-Alma, num caminho de reconhecimento de territórios por eles nunca antes navegados, dentro de si mesmos. O masculino é a seta, reta, direcionada; o feminino é a espiral, circum-ambulando em redor de si mesma, da periferia para o centro. Compreendo hoje melhor do que nunca a ferida do masculino nesta sociedade patriarcal; isolados num espartilho equívoco, da função sentimento, da vida interior, da faculdade da imaginação e da capacidade de viver a vida na sua dimensão simbólica. E sinto maior compaixão pela mesma, também, depois dos MISTÉRIOS DO MASCULINO. Vamos agora por partes:

A função sentimento

É difícil começar este tópico, pois a palavra “sentimento” pode ser ambígua e significar muitas coisas para diferentes pessoas. Onde não há terminologia, não há consciência. Uma temática que não tenha suficientes vocábulos para ser “trabalhada” numa dada língua, revela provavelmente que essa temática – como o “sentimento” – é inferiorizada ou depreciada nessa mesma cultura. Em Sânscrito há 96 palavras para significar “AMOR”; em grego há 3 – EROS, PHILIOS e ÁGAPE; em português há só uma?… Se tivéssemos vinte palavras para significar o amor e o sentimento seriamos uma sociedade com maior inteligência emocional e capacidade de conectarmos com o coração.

O antropologista Franz Boas afirmou que os esquimós têm muitas dezenas de palavras para significar “neve”, por exemplo: “aqilokoq” para “neve que cai suavemente” e “piegnartoq” para “neve que é boa para passeio de trenó”. Um esquimó provavelmente morreria de inaptidão se apenas tivesse uma só palavra para “neve”. Talvez que os ocidentais estejam a morrer de solidão porque só têm uma palavra para o “amor”.

A função considerada superior na nossa cultura, é a do pensamento e a função inferior, negligenciada é a do sentimento, e é esta precisamente, que representa a ferida da nossa civilização, tão bem expressa no mito do Rei-pescador, ligado à lenda do Graal. Esta ferida, diz o mito, nos órgãos sexuais do Rei – que representa a Consciência vigente numa dada cultura – mostra-nos a ferida da dimensão geradora, criativa e instintiva no homem patriarcal. Não admira que os homens secos na Alma pela selva de cimento da banal cumulação dos seus dias, se vire para as compulsões, caia doente ou… busque curar a ferida no xamanismo, no grito primal, no trance dance, na respiração, nos rituais como o Ayahuasca, etc. Integrar Dionísio, o deus reprimido na sua psique, é obra de coragem e talvez para toda a sua vida.

Os homens dos MISTÉRIOS DO MASCULINO, à semelhança dos outros, querem integrar Dionísio, a sua completude: O ESPIRITO PODE ALCANÇAR AS SUAS DIVINAS ALTURAS APENAS COM O PODER DA NATUREZA, DE PROVIDENCIAR A FORÇA PARA ESSA REALIZAÇÃO.

O homem cultural “civilizado” contemporâneo, ao matar Dionísio, o seu Green Man, o seu “homem natural interno”, recebe a retaliação da natureza que o torna impotente (vejam as vendas de Viagra). O homem sente a ferida diretamente na sua sexualidade e indiretamente na sua capacidade criativa.

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E o extraordinário mito – que explico com detalhe nos MISTÉRIOS DO MASCULINO, continua com o príncipe/Parsifal que representa os novos homens, que integram a função sentimento. Esta é uma valorização e uma validação da Vida, de Eros, do encontro, das relações internamente e exteriormente). Parsifal terá que redimir o Reino entretanto desertificado (a consciência coletiva patriarcal atual) curando o Rei da sua ferida encontrando o Graal, na jornada heróica que todos os homens são levados a encetar, por entre as florestas da vida. Para se conquistar o Graal, que é o nosso Self, ou Eu autentico, o tesoiro extraordinário da bliss, da completude imanente a descobrir, é precisa a inocência da juventude (que acabou por falhar no mito, com o jovem Parsifal) ou da maturidade consciente. Só foi possível aceder ao Graal quando Parsifal já mais velho, conseguiu finalmente colocar a questão: A quem serve o Graal? A graça de Deus ou Deusa está sempre disponível, mas temos que pedir por ela antes que ela se torne eficaz. O Graal necessita da inocência conquistada na maturidade, pelos preços que aceitamos pagar ao longo da jornada. Parsifal, após colocar a questão, compreende instantaneamente a resposta (que explicarei no Curso). O Rei-pescador é imediatamente curado, morrendo 3 dias depois. Isto significa que as partes feridas de nós quando já cumpriram a sua função no desenvolvimento da nossa maturidade, deixam de ser necessárias e precisam ser deixadas ir. Agora Parsifal é o herói/homem maduro, porque integrado nos seus feminino e masculino e o sofrimento do Rei-pescador é desnecessário. A tarefa do homem é encontrar o seu Parsifal interno, assumir responsabilidade por ele e trazer esse processo evolutivo para a sua vida consciente, encontrando o caminho para o Graal. Afinal, como diz o mito, é só andar um pouco em frente, virar à esquerda, e atravessar a ponte levadiça…. Está mais perto do que pensamos….

 2 – Da faculdade da imaginação e da capacidade de viver a vida na sua dimensão simbólica

Na nossa sociedade, deixou de haver espaço/tempo para a vida interior, a imaginação criativa, o trabalho com os sonhos, as linguagens simbólicas, as artes, a dança, a contemplação, o silêncio, a presença que favorece a expressão da vida da Alma.

Deixem que vos conte uma história real…BEM INTERESSANTE!

Havia um homem – um americano – que por opção era um homem solteiro e levava uma vida contemplativa, com espaço para o silêncio, a interioridade, a investigação espiritual, em detrimento de uma vida mais extrovertida, social e financeiramente mais expressiva. Pela sua quietude e sabedoria, era o conselheiro da sua família, que a ele recorria frequentemente como quem se aquece no manto de um sacerdote. Assim vivia, em semi retiro, até ter necessidade, num daqueles momentos cruciais da vida, de fazer uma análise junguiana (que incide significativamente na linguagem simbólica dos sonhos). A partir de uma certa altura do seu processo de auto descoberta, este homem começou a sonhar DIARIAMENTE ao longo de VÁRIOS MESES, o mesmo sonho:

– Ele viva no sul de Itália, era casado com uma italiana voluptuosa e tinha vários filhos felizes e ruidosos como imaginamos as crianças italianas. No seu sonho, todos os dias fazia amor com a sua bela e vibrante esposa latina, comia à mesa comida bem temperada, regada com bom vinho, ensinava os seus filhos e ia trabalhar para sustentar a família e pagar as suas contas. De dia, ele era um contemplativo, intuitivo introvertido; de noite, era um pai de família dedicado, feliz com uma casa cheia, uma vida plena que inclua as delícias e as agruras de quem assume as suas responsabilidades mundanas; perfeitamente integrado na comunidade, ativo e funcional. A sua psique, na busca pela totalidade do ser, propiciava-lhe assim viver a sua VIDA NÃO VIVIDA, ajudando-o a alcançar um ponto importante de integração das diversas partes de Si. A partir de um certo dia, em que teve um certo sonho, nunca mais sonhou com a sua família italiana. Nesse dia, sonhou que encontrava no meio de antiquíssimas camadas de terra, os destroços de uma rosa, aparentemente morta. A sua família italiana dizia-lhe que a rosa estava morta, mas algo dentre dele lhe dizia que não. Começou a escavar nas camadas de terra, até chegar à rosa. Depois de um momento de profundo silêncio, quando pegava na rosa com as suas mãos, ela de repente floresce e torna-se numa belíssima rosa vermelha, fresca e resplandecente, para espanto dos outros. Algo no seu coração se abriu, e o sonho italiano acabara para sempre, pois já não era necessário. A Rosa é uma flor mística, sagrada em varias tradições e também simboliza o Self (Eu divino) o Graal. Ao viver simbolicamente no sonho, partes de si negligenciadas, ou sem possibilidade de expressão –  A SUA VIDA NÃO VIVIDA – durante o tempo que a sua psique necessitou , desenterrando simbolicamente camadas de “inconsciente” este homem pode alcançar um grau de integração individual que culminou na Rosa Mística, na revelação do seu Eu autentico, na OPUS alquímica da consciência. A sua vida exteriormente pôde não ter mudado muito, mas a sua vida interior e a forma de ESTAR NA VIDA mudaram significativamente.

Uma vida não chegaria para vivermos todas as opções, escolhas e caminhos que deixámos para trás, porque escolhemos viver outros. Mas podemos vive-los no nível simbólico – através dos sonhos ou da imaginação ativa – pois têm o mesmo valor simbólico quando trabalhados conscientemente, no processo da completude psicológica. Deixemos pois, de tentar querer CONCRETIZAR TUDO – até porque não é possível, não há tempo-espaço suficiente, e integremos mais na nossa vida, este atributo feminino da imaginação dialogando e colaborando com as forças criativas do nosso inconsciente no caminho de Ser o Graal. Veja onde está a sua VIDA NÃO VIVIDA, faça o que puder por resgatá-la incluindo dar-lhe vida através da disponibilidade para a sua Alma, sonhos e imaginação. Verá como a sua vida vai mudar!

Muito bem!

O Curso MISTÉRIOS DO MASCULINO vai acontecer sexta 23 Maio na Maia, entre as 19H30-24H00. Informações e inscrições: Filipa Ventura filipa@espacoportal.com

Aproveito para anunciar com muita alegria, devido aos muitos pedidos que recebi, que vou coordenar a 6ª edição do WISDOM COACHING INTEGRAL® 2014/2015 em Lisboa! É um formato intensivo, de 5 sábados ao longo do ano letivo e uma certificação de 3 dias em Junho. Veja detalhes AQUI NO site: www.verafarialeal.com.pt/wisdom-coaching-integral

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Informações e inscrições: harmoniaviva@gmail.com

Abraço carinhoso,

Vera 

PSIQUE E EROS

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

Fernando Pessoa 

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