Dedicada ao Mário de Moura, aos nossos avós e a todos os anciãos que marcaram a nossa vida.

 Queridos Todos,

O meu 1º editor, o “mítico” Mário de Moura fundador da pioneira Pergaminho, acabou de fazer 90 anos. Quando “achou” que finalmente se ia reformar do mundo editorial, tirou 3 anos sabáticos – dois dos quais a viajar – e durante o ultimo escreveu pela primeira vez na vida, 4 livros (romances e contos)! Recebi há 15 dias um convite para ir ao lançamento dos seus livros e…. da sua nova editora, a 14ª! Recomeçar aos 90 anos, inspiradíssimo, a dedicar um dos seus livros à sua “musa”, a sua mulher Ione, amante garboso, sonhador assumido, concretizador rigoroso e original Mário, surpreendeu-me e comoveu-me. O seu livro: “Contador de estórias” (e Escultor de Almas) da sua recente editora Quatro Estações, é uma delícia; bebe-se de um trago e faz-nos navegar gulosamente dentro do nosso próprio ser. Como dizia Stendhal: “Um romance é como um arco de violino, a caixa que produz os sons é a alma do leitor.” Parabéns querido Mário de Moura!

Vera e Mario Moura

Ele começou cedo, aos 20 a ser fiel a si mesmo, quando por diferenças politicas se exilou e foi para a Venezuela. Para nos reinventarmos aos 40, 60 ou 90, temos que começar aos 20. A maioria dos anciãos e anciãs que conheci, que fazem a diferença, são a expressão de uma matriz, de uma semente que continuamente se desdobra em mais de quem nasceu para ser. Deixam-se ser podados pela vida, aprendem a saber quando lutar e quando retirar, aprendem a linguagem do silêncio ancorado num sorriso leve e enigmático e têm vislumbres de eternidade entre as sestas que o seu corpo maduro requer. Testam-se, aceitam as falhas e as aprendizagens, choram, têm ciúmes, insistem, recomeçam, libertam-se dos fardos de quem não são, simplificam a vida e praticam o mens sana en corpore sano. Muito importante ter saúde, embora respeite naturalmente a sabedoria da vida, que traz iniciações de todas as formas, mesmo através da doença, como o fantástico livro “A doença como caminho” ensina.

Desde pequenina que busco a sabedoria dos mais velhos; agora também já sei que há almas muito antigas em corpos muito jovens. Um querido amigo meu, ancião de sabedoria, diz que não sabe como tinha tempo para trabalhar quando era empresário. É que depois de se reformar, tem tanto que fazer, tantos amigos que visitar, cursos e palestras para dar, voluntariado para fazer, meditando diariamente e fazendo ainda as suas sessões como mestre de Reiki. Outra anciã de sabedoria, a querida Maria Flávia, costuma dizer que o tempo tem sinal mais, ou seja que para os seres conscientes cada dia a mais é um bem, uma bênção, pois é acréscimo de reflexão, experiência e ensinamento. A sociedade patriarcal divinizou o belo e o jovem (os jovens são consumidores mais compulsivos e as marcas sabem que é de menino que se torce o pepino). Fotoshopam-se as pessoas nas revistas (e até no cinema) para parecerem mais “perfeitas”; as pessoas mutilam-se com plásticas (acredito que na sua maioria inúteis) e dão-nos de enxurrada imagens sobre os estereótipos que é suposto consumirmos. E a sociedade patriarcal continua esquizofrénica, dissociada, à deriva. A forma não irradia a essência, antes espelha um ideal perverso, anti natura, reverso da medalha de uma cultura cheia de auto-ódio e de sombra reprimida em toda a latitude, desde o sexo à violência. Plutão em Capricórnio (signo que rege a maturidade e a velhice) força-nos a rever a forma de envelhecer, como tratamos os mais velhos, como nos relacionamos com o Tempo-Espaço, a Matéria e a Vida. Com uma honestidade implacável.

E quem não se soube reinventar aos 20, ainda pode fazê-lo aos 50, ou 60, como tantos exemplos tenho podido observar. O amor pode aprender-se, como aprendemos a Ser; a compaixão pode abrir-se no coração como reflexo de um processo da consciência. Plutão em Capricórnio preconiza a morte e o renascimento de uma civilização onde todos temos que morrer para fórmulas caducadas e renascer para “o Caminho menos percorrido” (outro maravilhoso livro). Não acredito no: sou velha/o demais para mudar, fazer isto ou aquilo. Nunca acreditei nisso. Sempre pensei, genuinamente, que o melhor ainda está para vir; como disse a querida Louise Hay, aos 80 anos: “esta é a melhor década da minha vida até agora”. É que a minha criança interior tem planos para os 60 e os 70. Apenas alguns, pois acolho muito os “planos que a vida tem para mim”, como disse um grande ancião de sabedoria, o Prof. Agostinho da Silva. Mas não difiro a vida, não atiro para o futuro sonhos que posso viver já. No agora, continuo a aprender coisas novas e a testar-me, a experienciar-me em novos personagens que dentro de mim buscam continua expressão, como a dançarina, a contadora de estórias, a atriz ou a poetisa. Reinvento-me nas palavras e nas imagens, como expressão da forma de caminhar e ser a Vida em mim. Não me consigo deixar de buscar, de encontrar, de não me saber, de unir e de recriar, numa espiral eterna.

O Mário Moura um dia disse-me que uma editora era com uma floresta: há livros-árvores que dão fruto imediato, outros demoram um ano e outros autores demoram 10 anos a dar frutos. E que, como na floresta todas essas espécies eram necessárias numa editora. Assim são os nossos sonhos, na vida, eles têm diversos momentos de amadurecimento e floração. No patriarcado fast-food/ fast-tudo, o imediatismo é anti natura: uma tendência a observar e trabalhar internamente. Fama, sucesso e glória, foram pervertidos pelo patriarcado e têm que ser re-significados, como de resto, tudo: o que é ser mulher, homem, família e sociedade.

 No hemisfério norte, estamos a poucos dias do fim do ano, do 1 de Novembro, o Samain – aproveite esta semana para deixar ir o que não serve, o que não funciona, velhas sabotagens, vícios e relações tóxicas. Vamos apoiar este processo no RETIRO DA SOMBRA, nos dias 1 e 2 Nov na Quinta da Enxara. Todas as personagens em nós buscam reconhecimento, mesmo as “sombrias” essas que rejeitamos e negamos. Aprender a reconhecer, validar e transformar as “personagens” luminosas e sombrias” que são você mesmo, é um caminho de completude e verdadeira iluminação. Vamos pois dar expressão no Retiro, dar voz a esses Neters, como lhe chama outra anciã de sabedoria, a Seena Frost, a essas energias que anseiam profundamente pelo nosso olhar, aprovação e relação; só depois poderão enriquecer a nossa vida com nova energia, inspiração, criatividade. Uma aluna recentemente disse-me que tinha uma falta de energia crónica há anos e anos. Muito controlada emocionalmente, sempre a dizer a “coisa certa”, procurando agradar aos outros formatada por um nefasto pseudo ideal de perfeição (o que quer que isso significasse para ela).Eu disse-lhe: você não tem falta de energia, tem até bastante, e eu sei onde está a sua energia, quer saber? Ela ficou surpreendida e disse que sim, claro. Olhei para um ponto imaginário nas suas costas e disse: atrás de si, na sua sombra! Há força de recalcar sentimentos, emoções necessidades, suprimir opiniões e desejos, reprimiu uma enorme quantidade de energia psíquica, fonte de vitalidade, que se “aglomera” como uma bomba relógio no seu inconsciente. Como é que eu acedo a essa energia? Abrindo a porta a todos esses conteúdos reprimidos, reaprendendo a sentir, que é seguro ter necessidades e expressar desejos. Indo-se buscar lá atrás, onde se deixou abandonada quando se desligou do corpo, por medo, e se alojou na cabeça. Respirando, dançando, honrando-se como parte da natureza, e aprendendo a ser boa mãe de si mesma. A bomba relógio no inconsciente dos pais, projeta-se muitas vezes em filhos significativamente revoltados, com depressões crónicas, ou mesmo dependências e problemas graves. A vida não vivida dos pais”, todo esse potencial de relação e expressão não assumido pelos pais assim como os seus conflitos internos não resolvidos, tendem a ser projetado para os filhos, que terão assim, não só que carregar a sua própria sombra, mas também a dos pais. Duplo e penoso peso. Sempre que um pai se não responsabiliza por si mesmo e pela sua felicidade, pela sua cura e harmonia, está a onerar a sombra dos filhos, passando-lhes uma herança dura. É claro que a condição humana produz estas heranças mistas, mas estamos num momento impar da nossa história, onde maior consciência se faz necessária para ser possível cocriarmos um novo paradigma. Outro ancião extraordinário, Carl Jung, disse que essa vida não vivida nos volta a assombrar na velhice, como fantasmas impiedosos que nos recordam continuamente “aquilo que podia ter sido se…” ou aquilo que “não era necessário ter passado por se…”.

Os anciãos que souberam viver bem – é minha convicção –  não são assolados por tais fantasmas e não devem ter muitos remorsos. Amaram, detestaram, ousaram ser eles mesmos, foram completamente humanos na sua paradoxal condição e deixaram na vida as pegadas de quem se cumpriu ao melhor da sua capacidade. Por um lado, temos a eternidade; por outro, temos o tempo que nunca mais virá; é bom reinventarmo-nos enquanto é tempo.

Quando olharmos para um ancião é bom evitar julgamentos e manter respeito; pode ser que a sua lentidão não seja porque tem pernas frágeis, mas porque o caminho para onde ainda agora nos dirigimos, já ele percorreu, viveu o que lá havia e regressou. Nós corremos de um lado para o outro, e eles já sabem o resultado da correria, muitas vezes. Pode ser que o seu olhar não seja passivo, mas tenha a serenidade de quem já viu muito debaixo do sol. Pode ser que o seu silêncio não seja ignorância, mas sabedoria de quem conhece a linguagem dos deuses.

 Obrigada por me lerem.

Abraço-vos com afeto,

Vera Teresa

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