Entrevista para Julio Calmon/editora Record/Best Seller

1 – Seu livro é um manual que pretende guiar o leitor para o caminho da felicidade. O que te levou a escrever “O Poder do Amor”? 

A minha busca pessoal do sentido da existência, que é uma peregrinação comum à Alma humana, tem-me levado a investigar, a ser iniciada e a reflectir sobre várias tradições espirituais. Desde que me lembro que busco as chaves para uma Vida com plenitude, que honre a nossa condição humana e divina. Nessa busca, sempre foi evidente que o verdadeiro poder não é o que se defende com armas, o que se compra com dinheiro, nem mesmo o que se conquista com feitos ou saberes. O verdadeiro Poder é o de nos pacificarmos com as nossas próprias contradições, conflitos e dores, é o de nos rendermos à Vida em nós e permitirmo-nos ser abraçados pelo seu amor e aprender a sua sabedoria. A sabedoria cresce na mesma medida em que nos identificamos com a nossa essência imortal e luminosa, e cada vez menos com o que é passageiro e circunstancial, teatros para que as lições sejam aprendidas. Em todas as tradições espirituais a Luz Maior surge como a fonte, a Mente primordial, o alfa e o ómega, o inominável, e os universos surgem como expressão da Sua vontade, actos amorosos da divina criação. Tal é o poder do Amor Maior. A manifestação dessa unidade primordial na multiplicidade dos seres, obedece às Leis Universais, que nos ensinam a resgatar a nossa condição divina imanente – abaixo assim como acima, macrocosmo no microcosmo –  configurando elas mesmas,  o verdadeiro manual para o caminho da felicidade. Um manual cósmico que nos ensina a reintegramo-nos na natureza-Vida com harmonia, autenticidade e sentido de solidariedade, pois estamos todos unidos nessa dimensão essencial onde só o Amor é real.

Quis, neste meu livro O Poder do Amor, partilhar algumas das chaves mais importantes que aprendi, sintetizadas pela minha visão pessoal da Vida. Pretendo partilhar saberes e ferramentas com real poder de transformação nas nossas vidas no sentido da evolução, da consciência e do Amor.

2 – Seu livro é bem didáctico, carregado de exemplos, referências e exercícios. Como você chegou a tal formato? 

Sim, este livro contém muitos exercícios que seleccionei da minha prática com milhares de pessoas ao longo de dez anos de trabalho no campo do desenvolvimento do potencial humano. Porque “uma grama de prática vale mais do que uma tonelada de teoria”, a aplicação do conhecimento é vital para que se produzam resultados concretos e duradoiros. Ensinar os fundamentos expande a nossa consciência, transforma crenças e potencia a nossa liberdade de escolha, mas o treino propicia a integração vivencial positiva e a mudança que se busca. O conhecimento, para ser útil precisa ser aplicado e não basta acreditar, há que viver de acordo com o que é verdade e faz sentido para nós.

3 – Como o livro trata de um processo de aprendizagem, o leitor certamente terá um procedimento a executar simultâneo à leitura – você até propõe exercícios ao longo dos textos. Você sugere alguma mudança na rotina da pessoa que pretende seguir os ensinamentos?

Sim, como referi na questão anterior, é a pratica que produz resultados duradoiros. Por isso, sugiro a adopção de um diário onde o leitor possa ir co-criando conscientemente o seu quotidiano, quer melhorando a sua capacidade reflexiva, quer ganhando consciência do enorme poder criativo de que dispõe. Transformar pensamentos negativos, reciclar crenças limitadoras, alquimizar dores emocionais, tudo requer adopção de novos comportamentos e rotinas de vida. Quando treinamos o nosso diálogo interno e pensamos de uma forma mais límpida, construtiva e harmoniosa, e simultaneamente adoptamos práticas mais positivas e curadoras, começamos a aumentar a nossa coerência e consequentemente, a nossa capacidade de magnetizar os resultados que vibram na mesma frequência positiva que os nossos actos, palavras e intenções.

4 – Em Portugal, você acaba de lançar uma nova edição de “O Poder do Amor”. Como tem sido a resposta do público português? Vê diferenças no leitor português e no brasileiro?

A primeira edição do livro foi um sucesso, pelo qual estou naturalmente grata e feliz. Acredito que esta nova e muito recente edição, que está maravilhosa, continue o caminho de expansão deste livro que muito amo.

Não reconheço diferenças significativas neste dois públicos. Os leitores brasileiros desfrutam há mais tempo, de uma oferta excelente nesta área do desenvolvimento pessoal. Em Portugal, esta expansão deu-se sensivelmente há uma década e tem vindo a crescer extraordinariamente. Para além das idiossincrasias próprias de cada nação, o que alma em nós busca é semelhante: todos queremos viver com plenitude, com oportunidades de nos expressarmos, de desenvolvermos o nosso potencial, de amarmos e de sermos amados e apreciados. Há vários anos que recebo pedidos dos meus livros, vindos de muitos leitores brasileiros. Estou imensamente feliz por poder chegar agora ao público brasileiro e por poder conhecer, no final do ano, esse país que amo por antecipação.

5 – Há muitos exemplos de casos reais no livro. Você acredita que isso aproxima mais o leitor do que você está propondo?

É fundamental partilhar a riqueza de casos reais que têm passado pela minha vida profissional. Como já referi, as personalidades são distintas mas a Alma – isso que em nós sente – une-nos a todos nos mesmos anseios, questões e experiências. Assim, quando nos identificamos com a dor, ou a esperança, ou a vitória do outro, há um movimento interno que ocorre, que nos permite avançar para terreno novo, que nos ajuda a confiar no caminho talvez menos percorrido, mas necessário para a vida da nossa Alma. Essa identificação com a história do outro, ajuda-nos a situarmo-nos na nossa e oferece-nos mais opções, fomentando a esperança na transformação e na mudança.

6 – Acredita que menos pessoas queiram trilhar o caminho do amor nos dias de hoje? Por que temos a sensação que há mais gente em permanente crise agora?

Acredito que há cada vez mais pessoas a trilhar o caminho da consciência e a optar pela expressão do Amor como via de cura psíquico-afectiva, como manifestação da Lei das Correctas Relações Humanas e como senda espiritual. Esta crise civilizacional em que vivemos pede-nos reformulação total dos paradigmas e dos pressupostos com que erguemos as civilizações modernas. Para tal, provavelmente teremos que recuar até há cerca de 3 a quatro mil anos, às raízes da civilização patricarcal cujos frutos perversos e infelizes estão agora a cair, muito mais que de maduros. A repressão da polaridade feminina/Yin na psique humana, a militarização do mundo como expressão de um medo básico e neurótico que tem produzido guerras intermináveis e institucionalizadas nas nossas sociedades, o desrespeito pela mãe terra, a perda de ligação com os ciclos da natureza como expressão espiralada de um devir psíquico saudável e harmonioso, o primado da produtividade servindo um consumismo desenfreado e esgotando os recursos naturais, o fazer em detrimento do Ser, a dessacralização espiritual promovida pelo materialismo cientifico dos últimos trezentos anos, a extroversão compulsiva em detrimento da meditação/contemplação que abrem as portas da Alma e da paz, a deidificação da forma/matéria em detrimento da essência/espírito, todas estas e outras são causas e consequências da crise actual. Quem ainda não foi capaz de se pôr em causa e de procurar por si mesmo e em si mesmo, o verdadeiro poder: o poder da paz interior, da harmonia com a Vida pela rendiçã dos medos, fantasias e equívocos do ego, à vida autêntica, plena e maravilhosa que a Alma nos ensina, dizia, esses estão em grande crise pessoal. Porque a Vida já não lhes permite que busquem respostas fáceis, atalhos superficiais com fuga para a frente de um dilema interior que urge resolver com amor-coragem. Temos muitos amigos no Facebook, mas nunca estivemos tão sós e des-almados, dissociados da Alma. Agora já não dá para disfarçar o medo, a angustia e a solidão. Mas esta é a oportunidade extraordinária que temos, para nos absolver do passado e libertar de tudo aquilo que nos reduz e oprime, para despertarmos para a verdadeira felicidade e alegria que ainda estão dentro de nós à espera de serem resgatadas.

A renascença espiritual na Nova Era tem estado amalgamada com um capitalismo espiritual que vem prometendo uma felicidade fast food, onde o mantra do ego: “ter mais” revela a ambição de mais e mais das personalidades confusas e tristemente perdidas da alma.

Nenhum caminho que prometa: Você pode ter tudo o que desejar” é um caminho espiritual. Não nos enganemos: a espiritualidade não é um spa onde ocasionalmente nos vamos refrescar para fortalecer os nossos desejos mais ou menos conscientes de poder, supremacia, onde nos vamos consolar da tristeza de não ter a vida fantástica que o outro tem e que me faz sentir tão infeliz. A Alma pede-nos rendição, doçura, inclusividade, compaixão, tolerância, magnanimidade. Nada possuindo, ela É o poder verdadeiro. Sem agir, ela nada deixa por fazer no coração da Vida. Esta é a via do Amor Maior.

7 – Há amor sem espiritualidade?

Entendo o Amor Maior com uma Lei espiritual, não só como um mandamento divino, mas como a própria essência divina. Esse Amor universal, o ágape grego, é a própria expressão da espiritualidade. Depois, a forma com cada reino da natureza e como cada ser humano capta, “filtra”, entende e expressa esse Amor Maior, depende da nossa afinição espiritual, da nossa vibração energética. Essa vibração afere-se do nosso grau de coerência interna (como referi em questão anterior), do nosso grau de identificação com essa mesma essência divina vivida na prática quotidiana. Quanto mais praticamos o mandamento do Amor Maior, que tudo faz para o bem maior de todos, maior a espiritualidade, maior a expressão do amor divino em nós e através de nós. O Amor divino exprime-se privilegiadamente através da Lei das Correctas relações Humanas, que integra a reciprocidade, a consciência das necessidades e responsabilidades mútuas, a partilha e a solidariedade.

Quer tenhamos disso consciência ou não, todos buscamos de várias maneiras esse Amor maior, essa plenitude, essa presença que tudo preenche, esse “encher” do coração”. Uns buscam nas relações, outros no trabalho, outros na meditação, outros no coleccionar títulos ou objectos… todos buscamos o indefinível sopro da doce brisa do Amor, expressa através da capacidade única de cada um. Os gregos tinham ainda outras duas palavras para outros tipos de amor: philios – que vivemos entre pais e filhos, amigos – e eros, expresso nas relações afectivas de parceria. Diria que são formas de expressar o mesmo Amor primordial; cada um vive o amor de acordo com a forma como o concebe, define e acredita.

Cada um tem o seu conceito e vivência do amor, de acordo com a sua afinação. O que um chama amor, para outro pode ser mero apego, obsessão ou dependência. Aliás, é muito comum chamar-mos amor às nossas carências. Para uns, amar é renunciar, para outros, é manipulação, defesa ou jogos de poder. Os equívocos sobre o amor são tantos quantos as doenças da alma humana. Precisamos pôr-nos em causa e reflectir profundamente e com sensibilidade, sobre o que é o amor para nós, como o recebemos e como o damos nas nossas vidas. Acredito que a Vida é um processo inteligente qualitativo (com um propósito divino subjacente) que se desdobra em várias dimensões ensinando-nos continuamente a despertar para o Amor que somos.

Cada um de nós é como uma harpa: a moldura externa é o corpo-personalidade, as cordas internas são a alma. Se estiverem desafinadas, a desarmonia interna provocada é certa. Se estiverem afinadas pelo diapasão das oitavas divinas, a musica tocada por essa pessoa reflecte no seu quotidiano e relações, a harmonia das esferas celestiais; exactamente como uma harpa! Quanto maior a nossa afinação interna, tanto mais conscientes e harmoniosos somos, quer enquanto indivíduos, quer enquanto sociedades. Despertar para a espiritualidade e vivê-la conscientemente é certamente expressar, ao melhor do que formos capazes, esse Amor Maior de que somos parte. Amar é Unir.

8– Somos Seres que se esqueceram da sua condição divina?

Sim. Vivemos na era do Kali Yuga hindu, a Idade do ferro, onde as trevas da memória que quem somos, são mais densas. Onde a amnésia é mais profunda e disseminada, propiciando a inversão total de valores que favoreceu o “caos existencial da era moderna”. Mas, como afirma o ditado, a hora mais negra é a que antecede o raiar da madrugada. A luz da consciência brilha cada vez mais forte, sob o pano de fundo do negrume da ignorância e do esquecimento de quem somos, que nos isolou e alimentou o nosso medo, que por seu lado, nos colocou uns contra os outros. Há outra forma de viver. Podemos reafirmar de novo o binómio vencedor-vencedor e criar sociedades mais fraternas e justas.  Precisamos ter a coragem de admitir que apostámos nos cavalos errados, precisamos depor as armas que nos mantiveram sobreviventes e precisamos reaprender as viver. A Era do Aquário que agora dealba, corresponde ao início de um novo ciclo em que a espiritualidade não mais será vivida como devoção cega, mas como afirmação consciente da nossa condição divina. Em que estamos a passar do individualismo à individuação: o verdadeiro poder interior só pode nascer do autoconhecimento e da nossa capacidade de sermos fiéis ao nosso destino, ao caminho que precisamos percorrer para sermos a pessoa que nascemos-para-vir-a-ser. Quanto mais profundamente adentrarmos o caminho circum-ambulatório do autoconhecimento, mais descobriremos a pessoa única que somos e, paradoxalmente (ou talvez não) mais recordaremos a nossa condição divina e a unidade essencial que todos partilhamos. Nesta senda, o potencial de construirmos sociedades humanas renovadas é extraordinário.

9– Como funcionam as leis universais?

Desde sempre que todas as sabedorias e conhecimentos espirituais, iniciáticos, revelaram leis subtis que presidem ao plano espiritual e à dimensão da consciência. Essas leis são como que o manual de instruções do cosmos. As leis universais funcionam como princípios organizadores da experiência nos vários planos de manifestação: delas derivam vários estatutos, princípios e práticas espirituais.

De acordo com essa sabedoria, a verdadeira natureza da matéria está contida nestas leis. Conhecê-las é transcender gradualmente a dualidade da realidade aparente. Vivê-las, é conquistar a verdadeira liberdade interior. “Conhece a Lei e sê livre, dizem os mestres”. Ser uno com elas é assumir a nossa condição de seres espirituais a ter uma experiência humana e fundirmo-nos com o princípio primordial da Vida: o Amor Universal.

Utilizar a Lei de forma consciente é uma experiência maravilhosa e uma grande aventura: é sentir que podemos plantar sementes com as nossas intenções e vê-las gradualmente tomar forma.”Precisamos estar disponíveis e dispostos para aprender. Quanto mais conhecemos e vivemos essa ciência da Vida, mais o nosso livre arbítrio se coaduna e alinha com o nosso propósito de vida: a auto-consciência, a evolução, a excelência.

Quando vivemos alinhados com as leis universais, o universo inteiro conspira connosco, com a nossa realização, evolução e felicidade. As portas abrem-se, as sincronicidades sucedem-se, os milagres tornam-se uma forma de vida.

10 – Equilíbrio, desapego, perdão, meditação etc. É preciso ser rigoroso consigo mesmo para que possa usufruir todos os recursos da vida?

É preciso estarmos dispostos, estarmos disponíveis para: assumirmos total responsabilidade pelas nossas vidas e pelo nosso bem estar pessoal; colocarmos a nossa sanidade e desenvolvimento integrais como prioridade da nossa vida e comprometermo-nos com essa meta celebrando uma aliança de amor connosco mesmos. Há medida em que vamos assim caminhando e transformando velhas crenças, atitudes e estilos de vida caducos e vazios, uma dinâmica formidável se coloca em marcha na nossa psique e dizemos que o universo conspira a nosso favor, porque apoia a evolução.

É preciso sermos honestos connosco mesmos, assumindo-nos por inteiro nas nossas necessidades e diversas facetas, tendo a coragem-amor de fazer as escolhas e de pagar os preços que forem necessários para afirmarmos essa fidelidade ao nosso processo e projecto de Ser, doa a quem doer. Na verdade, a única pessoa sobre quem precisamos trabalhar, somos nos próprios.

Quanto mais auto-amor e respeito formos capazes de construir, mais a nossa vida se transforma: deixamos então de caber na vida que tínhamos e começamos a experienciar novos aspectos de nós mesmos, que atraem novas vivências e oportunidades de aprendizagem, afirmação e concretização. O mundo exterior espelha as nossas paisagens internas. O rigor, se entendido como disciplina consciente e voluntária a um estilo de vida positivo, consciente e libertador, torna-se uma necessidade importante, uma chave para a mestria do bem viver. E quanto mais integrarmos na nossa vida os ensinamentos espirituais, mais desfrutaremos de uma paz interna que excede todo o entendimento. Melhor equipados estaremos para lidar com os desafios, aumenta a frequência das sincronicidades (coincidências significativas) na nossa vida, que são sempre pistas e soluções surpreendentes e criativas.

É viver muito para além da mera realização de objectivos: é viver uma vida mítica, onde se cumpre a nossa Lenda e Mito pessoais, onde o sucesso é viver uma vida miraculosa. O poder do Amor é um manual de inteligência espiritual, uma forma de vida que se enraíza no nosso centro, uma frequência vibratória ou um estado de consciência que vai abrindo mais e mais uma dimensão de paz, acrescentando-nos equilíbrio, foco e eficácia. A inteligência espiritual torna mais sábios os nosso desejos –porque já não estão ao serviço do ego separatista à procura de gratificação instantânea – torna mais autenticas as nossas escolhas e mais feliz a nossa vida. Que a profunda presença da Alma se possa manifestar no nosso coração, onde o Amor Maior nos abraça e transforma para sempre, com a sua Luz.

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