Falamos com reverência do Feminino, mas ainda pensamos de forma “masculina”, dicotómica, ainda damos espaço ao “nazi” interno para aprisionar a alma e o corpo num campo de concentração de julgamentos, adições, perfeccionismos suicidas, produtividade sufocante, ritmos diabólicos.

Falamos da Deusa em nós, mas ainda estamos longe de religar ao corpo, de falar literalmente com ele diariamente, de acreditar piamente na sua sabedoria, em vez de na sabedoria dos factos. Estamos contra o patriarcado moribundo, mas por vezes esquecemos que os homens estão igualmente feridos e que também durante o patriarcado os homens nascem de mulheres. E se tornam tão inconscientemente dependentes do “complexo da mãe” e crescem meninos que querem matar a bruxa-mãe (matando o princípio feminino neles e no macrocosmos terra) ou meninos que querem agradar às suas mulheres-mãezonas, mas que depois de bem “agarrados” pelo controle destas, perpetuam a divisão virtuosa-prostituta quando vão à procura de mulheres mais jovens com quem não se sentem impotentes.

A Deusa já desponta nos corações de muitas e muitos mas, ainda não temos a coragem – nem um Eu suficientemente forte – para abandonarmos algumas estruturas de vida e vivermos a Vida da Alma, criativamente ancorada na plena consciência do corpo-alma. Ainda não estamos preparados para pagar o preço dessa consciência-liberdade.

Substituímos como civilização, os rituais da Deus pelos rituais das adições –abre a porta do frigorifico à noite, puxa do cigarro, trabalha, trabalha, fica passivo frente à TV, foge do vazio do corpo e da Alma, foge do silencio onde te sentes nada, e continua a representar na periferia do teu SER, na fantasia “espiritual” da perfeição que é na anorexia por ex, um dos disfarces do suicídio.

Queremos ser femininas na maior acepção da palavra mas ainda desconfiamos das palavras “rendição”, aceitação, entrega, viver o agora, como se fossem ecos distorcidos de uma submissão a não sabemos bem o quê, ou apenas uma linguagem estranha. Tão estranha quanto os nossos corpos se tornaram para nós.

Queremos ser femininas e vamos para o ginásio sofrer (não há mal nenhum) mas trabalhar o corpo do ponto de vista do Feminino é toda uma outra coisa: é dançar diariamente os elementos (a agua das emoções, o fogo da paixão, o éter da ligação ao céu, a terra da intimidade com a sexualidade, com os ritmos naturais e as emanações próprias do corpo-terra. É saber ler a linguagem dum sintoma, é pedir ao corpo uma imagem e com ela curarmo-nos a nós mesmas. É dar-lhe o tempo de que ele precisa: o corpo e a alma vivem no agora e estão ligados ao tempo do AMOR.

Tenho verificado o quanto é ainda difícil para nós mulheres, recordarmos – e VIVERMOS – o FEMININO (imaginem para os homens). Alas! Ela a Deusa, emergirá de qualquer forma, mesmo que através das nossas doenças individuais ou civilizacionais, para que a reconheçamos finalmente e uma nova era ocorra, uma nova e inédita integração do YIN e do Yang, FEMINIDADE CONSCIENTE E MASCULINIDADE CONSCIENTE – nestes tempos em que ainda começamos, como humanidade, a entrar na adolescência (talvez).

Para uma Feminilidade consciente, há que religar ao corpo-Alma, aos instintos e passar da cultura do poder para a do Amor. Não basta vivermos pela força de vontade. Temos que genuinamente abrirmo-nos a viver pela alegria de habitar um corpo, nesta terra que também somos.

O feminino não se interessa pelos objectivos; não corre atrás da Vida, pois é o amor colocado no processo (de viver). Ele permite-se e permite, que os seus filhos e criações sejam o que nasceram para vir a ser.

O Feminino é um corpo-alma que dança na Vida, suficientemente forte e flexível para ser penetrado pelo espírito naquilo que se chama o andrógino, a boda mística. E depois da penetração, que é cíclica como a natureza, volta aos seus afazeres diários, livre da fantasia da perfeição, livre para continuar a tecer a vida criativa da alma, que não é concretizar tudo produzindo, objectivando, mas é pura imaginação criativa, visão, inspiração, metáfora e história, vividas na terra de si mesma que se torna fértil porque se abriu ao verdadeiro mistério do feminino que, finalmente, nenhuma palavra (hemisfério esquerdo) pode reproduzir. Nem estas 😀

Abraço do coração

 

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