Conheça-se e transforme a sua Vida com os Dez Arquétipos da completude humana: A BUSCADORA_O BUSCADOR© Por Vera Faria Leal

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 A busca do sentido da existência, no coração da humanidade, pode ser paralela, creio eu, à evolução da nossa consciência. Os homens e as mulheres das antigas sociedades matriarcais (que deram gradualmente lugar às sociedades patriarcais ainda vigentes há cerca de 4.000 anos)  partilhavam um sentimento de unidade com todo o mundo natural/cosmos. Na relação entre o microcosmos homem/mulher e o macrocosmos universo, eles encontraram significado para os seus ciclos, conexões com a sua vida, e um sentido de sacralidade da Vida Una, que tudo e todos ligava no abraço da Grande Deusa. O paradigma civilizacional mudou com o patriarcado, assim como os ideais espirituais milenares: a Deusa Mãe foi substituída por Deus Pai; o poder da natureza foi substituído pelo poder contra a natureza. A preponderância de ideais espirituais profundamente indiferentes ao (doloroso) paradoxo da condição humana, a assunção duma “perfeição” espiritual abstrata, árida e desprovida de sentimento e de completude, a repressão da polaridade feminina em homens, mulheres e cultura, tudo contribuiu para uma profunda e tantas vezes perniciosa alteração da perceção da sacralidade inerente à Vida, esse Mistério maior.

 Podem ter mudado formas de culto, regras, princípios e doutrinas; podem ter-se alterado os mitos e as histórias dos deuses e deusas mas, creio eu, a busca dum sentido existencial mais profundo permaneceu. Independentemente da forma e dos códigos que a busca assume no devir das civilizações humanas, o anseio no coração de cada homem e mulher despertos para a sua condição simultaneamente humana e divina, é, acredito, incontornável.

 O Arquétipo deste mês de Dezembro simboliza a procura por essa sabedoria, espelha a necessidade de uma visão transcendente que também qualifique a vida humana respondendo ao chamamento espiritual de unidade e “ascensão”. A/O BUSCADORA/BUSCADOR são protagonistas dessa procura que nos leva sempre “mais além e mais profundamente dentro”; são o motor da jornada do herói/heroína que somos cada um de nós na via da existência; são a/o que busca o fogo da inspiração da vida, que se reveste de uma visão espiritual/transcendente e do amor universal. Nesta medida, A/O BUSCADORA/BUSCADOR estão ligados a um outro arquétipo o da SACERDOTISA/SACERDOTE pois ambos são cuidadores do fogo da fé, no altar dos corações humanos.

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São quem estimula a manter acesa a chama da esperança; quem conforta com as águas da compaixão e quem ensina a trazer o céu da paz de espírito à terra dos nossos corpos e relacionamentos. Em Dezembro (21), inicia o solstício do Inverno que representa o nascimento da luz solar (pois a partir daí os dias recomeçam a crescer); esta luz é um símbolo da luz espiritual, e esta mensagem é refletida dia 25, com a Virgem dando à luz a Luz do mundo, na tradição cristã. Este é pois o mês perfeito para conhecermos e aprofundarmos este arquétipo da/o BUSCADORA/BUSCADOR, junto com o da SACERDOTISA/SACERDOTE.

 O Chamamento

 As nossas buscas na vida, começam sempre com um anseio, que pode ser mais ou menos consciente e crescer, quer sob a forma de um (divino) descontentamento, vazio, ou de um sentimento de que há algo mais que “está lá fora” e que precisamos descobrir. Muitas vezes, nem conhecemos o nome do “misterioso elo perdido”; noutras como com a Cinderela, sabemos que é o príncipe, ou a iluminação no caso de Hercules, ou uma criança (Pinóquio) com Gepetto, ou o tesouro como tantos outros heróis!

 A BUSCADORA/O BUSCADOR são o arquétipo ativo por detrás da urgência de partir, da necessidade de cruzar fronteiras desconhecidas, escalar montanhas, atravessar oceanos, em busca da visão, sabedoria, para atingir o que à partida parece inatingível.

 A busca é movida como com os cavaleiros da távola redonda nas lendas Arturianas, por ideais espirituais, ou, como no êxodo do Egipto liderado por Moisés, pela Terra Prometida, um mundo mais perfeito; ou, como nos movimentos migratórios, por um futuro melhor. Acredito que é esta busca que motiva os sonhos de maior justiça social, como o famoso “I have a dream” (Eu tenho um sonho) de Martin Luther King, ou todos os movimentos de libertação do potencial humano, e de expansão da consciência, tão marcantes desde os anos setenta. A busca dos tesouros do “El Dorado”, as promessas do “Novo Mundo” e do “American Dream” (estilo de vida americano) ou o explorar das fronteiras do espaço são mais exemplos do poder deste anseio de transcendência no coração da humanidade.

 Ninguém está imune a este chamamento do desconhecido: seja a busca por amor, dinheiro, status, sabedoria, nirvana, mais saúde, liberdade, consciência ou outro, o que sentimos é que… queremos mais, queremos esse “algo” que nos falta.

 

A Jornada

 Já falei em artigos anteriores da Jornada arquetípica do Herói/Heroína, que todos somos.

 – Ela começa pelo anseio por voltar à inocência que desfrutávamos antes da queda do paraíso (antes de sentirmos dolorosamente, que a vida nos “trai” de muitas maneiras).Acredito que o desejo de retornar à “inocência” e felicidade primordiais podem ser as grandes alavancas por detrás dos nossos esforços e tentativas de expansão e evolução. E vamos buscando mais amor, mais dinheiro, mais realização, mais conhecimento, mais aventuras, mais…. E parece que nada preenche, nada responde de forma plena ao anseio pelo paraíso perdido. O desejo do paraíso externo, seja sob que forma for, é uma projeção do verdadeiro anseio: a expansão da nossa consciência para além dos limites do ego, para abarcar a alma, a essência espiritual, a completude do ser. É porque estamos divididos, cindidos fragmentados, que nada consegue preencher essa lacuna; só quando nos tornamos reais, e damos à luz o nosso verdadeiro eu/essência, podemos começar a sentir essa completude, que só se pode alcançar se respondermos ao chamado à aventura!

 “Peregrino, o que buscas por esse mundo fora, está dentro de ti”. Inscrição latina do séc. XVI, em subterrâneo na catedral de Santiago de Compostela.

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 E assim “saímos da casa do pai”, literal e metaforicamente (de um estado de consciência para buscar outros) e procuramos vocações, relações, experiências, realizações, lares, escolhas, paisagens, estilos, emoções, ligações, descobertas. Começamos instados por sentimentos de limitação no nosso ambiente; na demanda, o buscador é confrontado com escolhas: conformo-me ou busco a minha individualidade? Conformar-me para agradar à família/autoridades/pares, cria geralmente uma tensão entre quem realmente somos internamente e a “máscara” social que usamos para o exterior. Essa tensão é absolutamente necessária para o nosso desenvolvimento e impele-nos ao processo de expressão da nossa individualidade, o nosso sentido único de ser. O chamado à aventura, sendo típico do final da adolescência, pode surgir em qualquer idade; na meia-idade, reavaliamos a conquista resultante da busca, a partir dos ideais da juventude e redefinimos as ambições para a fase seguinte, no contexto da nossa mortalidade. Por vezes, alguns de nós sentem que não podem seguir o anseio de aventura devido às responsabilidades… parentais, familiares, profissionais, financeiras…. Podemos pensar: ah, se ao menos eu pudesse ir fazer um retiro espiritual na Índia, ou tirar um ano sabático e viajar à volta do mundo, ou qualquer outro anseio, aí eu seria feliz ou estaria a cumprir o meu destino. Mas a verdade é que, independentemente da forma que a busca assume, ela serve sempre as necessidades de expressão da Alma, no caminho da nossa completude e integração. A vida serve esse propósito e há sempre um nível mais profundo de consciência que nos é oferecido em qualquer circunstância, aliado a uma forma mais significativa de viver onde vamos reconhecendo a nossa verdadeira essência. É também verdade que para abrir, florescer e evoluir precisamos quase sempre de romper com ambientes e fórmulas familiares, ir para além do que já conhecemos, mesmo que seja através dos “desafios” da vida (quando são os outros que nos deixam, rejeitam e abandonam). É comum começarmos por saber primeiro, o que não queremos, antes de saber mesmo o que queremos e que verdadeiramente nos cumpre. À medida que as nossas necessidades vão sendo supridas, (mas descobrimos, quantas vezes surpreendentemente, que o vazio interno permanece) podemos começar a assumir esse compromisso com a nossa própria alma, e o arquétipo da/o BUSCADORA/BUSCADOR é ativado de novo. Lá vamos nós para a “floresta”, sem qualquer certificado de garantia, fazer a travessia.

Quando nos sentimos mais perdidos, é importante lembrar:

 – Que muitas vezes a maior vitória é a rendição aos caminhos da vida;

– Que precisamos ter a coragem de tomar decisões mesmo que não saibamos exatamente aonde elas nos levem;

– Que podemos descobrir a imagem representativa do que buscamos, se prestarmos atenção à nossa imaginação, às imagens que o nosso corpoalma produz (seja acordados, seja nos sonhos).

– É importante permanecermos fiéis à nossa confiança num propósito superior, que move invisivelmente a viagem.

 

Nunca é tarde demais para se responder ao chamado à aventura, para dizermos sim a um maior sentido de vida. O importante é deixarmos de ser Vagabundos errantes da vida, aqueles que nunca se comprometem verdadeiramente com a sua missão/propósito, que têm medo da intimidade, dos outros; que nunca se entregam de verdade a nada, que estão sempre “de pé atras”, que estão sempre à espera do paraíso fácil sem querer pagar o preço para nele reentrar – e tornarmo-nos verdadeiros Buscadores. Quando nos tornamos Buscadores, a nossa vida ganha qualidade, profundidade, sabedoria, sentimento e verdade. Tornamo-nos pessoas reais e sabemos que a verdadeira mudança a almejar está para além do exterior: é uma realidade para a qual precisamos converter-nos, dentro de nós mesmos.

 A BUSCADORA/BUSCADOR, vivenciam o chamamento como um rito de passagem, uma iniciação na dimensão mais transpessoal, sem a qual não podemos “dar à luz” a nossa essência espiritual.

 A Busca aproxima-se tanto da autenticidade do ser e unidade espiritual como o arquétipo da/o BUSCADORA/BUSCADOR se aproximam do da SACERDOTISA/SACERDOTE. Podemos dizer, simplificadamente, que provavelmente todas a formas de busca se resumem ao desejo básico de encontrar autenticidade – em nós, no mundo e no universo. Todas as tradições têm os seus símbolos do sagrado que representa esta unidade primordial. Podemos encontrar o sagrado, essa experiência de fusão/unidade com a vida, através de muitas vias, fazendo diversas coisas, mas sempre num movimento autêntico e profundo, onde nos sentimos “reais”, vivos e em presença da “verdade do coração”. Está para além da linguagem religiosa, ou seja, a busca por maior sentido é de todos, consciente e/ou inconscientemente; é uma experiência para a qual a Alma nos impulsiona. Dito de outra forma, a busca é que “faz a Alma”, que fala a linguagem do Amor, para além de qualquer tempo, doutrina ou crença. A/o BUSCADORA/BUSCADOR, é aquele que determina o que valoriza, o que é sagrado para si, o que infunde a sua vida com sentido, realidade, essência. As pessoas que têm este arquétipo dominante são buscadores do Graal – que é um estado de consciência cada vez mais identificado com o todo, um guardião do portal da vida interior; não desistem na sua demanda pela visão interna, pela verdade cósmica, pelo seu verdadeiro Eu. E estão dispostos a pagar o preço que for preciso; muitas vezes abandonam carreiras, relações, estilos de vida, países, na fidelidade à sua jornada. E assim podem morrer para o antigo eu, egoísmo e solidão existencial, para renascerem para a sua divindade imanente, conectados e compassivos para com os outros, tornando-se eles mesmos o Graal no qual outros vão beber. Encontrar o Graal, é tornarmo-nos nele! A/o BUSCADORA/BUSCADOR internos, é essa parte que busca não só para nós, mas para toda a humanidade.

 O lado sombra:

 Ambição excessiva, perfecionismo, orgulho, incapacidade para o compromisso, tendências aditivas. Quando não respondemos ao chamado, vivemos a busca no seu lado sombra:

 – Como uma necessidade obsessiva de sermos independentes que nos isola dos outros e de nós mesmos;

– Através de sintomas físicos ou mentais; James Hillman disse: “As nossas patologias são chamamentos dos deuses”.

– O impulso de ascensão espiritual pode degenerar em adições, vícios, dependências emocionais ou de substâncias, ou numa ambição desenfreada para “chegar ao topo”.

– Orgulho egótico, “hubris” que sempre precipita a queda de quem a sofre, por querer ir para além do que pode sem qualquer consideração pelos próprios limites. 

Objetivo Medo Como responde aos Problemas Tarefa Dons
Busca de uma vida melhor, com maior sentido. Normalmente ativado por insatisfação e/ou vontade de experimentar vida nova.  Conformidade; ficar bloqueado. Tende a fugir, a tentar escapar. Ser verdadeiro com uma verdade superior ou mais profunda Autonomia, visão e sabedoria espiritual. Transformação pessoal. Conexão com a sua essência.

 Em Astrologia, relaciono a/o BUSCADORA/BUSCADOR com os signos do Sagitário (que estamos a atravessar em dezembro) e Aquário (Fevereiro). No Tarot, esta Jornada começa com a disponibilidade total do Louco, para a viagem no desconhecido e termina com o Mundo, a chegada a outro nível de consciência que oferece à sociedade; o Papa e a Papisa são exemplos do arquétipo da SACERDOTISA/SACERDOTE: os que velam os mistérios espirituais.

 Algumas Deusas Sacerdotisas: a Danu celta, a Kwan Yin japonesa, a Héstia/Vesta greco-romana; simbolizam a dedicação a uma via espiritual, a sabedoria e a compaixão espirituais. Esta é uma das três deusas Virgens – na antiguidade, virgem significava ser inteira, una em si mesma, pertencente a si mesma. As mulheres acendiam uma chama no altar, no coração da sua casa, e era este gesto de consagração à luz de Héstia, que transformava uma casa num lar. É também uma metáfora que exprime a essência da/o SACERDOTISA/SACERDOTE: a/o que vela no seu coração, a chama da luz divina. Este é o arquétipo dominante nos sacerdotes, padres, monjas, sacerdotisas e xamãs.

  – Como ativar a/o sua/seu BUSCADORA/BUSCADOR: quando estiver em momentos de estagnação limitação e vazio, é fundamental desenvolver este arquétipo. Permita-se ir mais além, sair da sua zona de conforto, adentrar o desconhecido e correr riscos necessários para evoluir. Procure mentores que o ajudem a decifrar alguns sinais no caminho; todos os BUSCADORES são oráculos vivos, e ajudam-se mutuamente a interpretar as pistas na sua demanda. Privilegie uma via mais autêntica e ligada à essência, desenvolvendo a sua dimensão espiritual.

 Questões:

 – Quais têm sido os seus sonhos? Visualize-se a ir para além da vida que tem e a assumir uma vida diferente, com maior sentido e qualidade: como seria essa vida?

– Quem são os seus amigos/conhecidos, que têm este arquétipo dominante?

 – Como e em que medida a/o  BUSCADORA/BUSCADOR se tem expressado na sua Vida? Mais com a família, trabalho, amigos? Mais no passado ou presente? Como gostaria de evoluir com este arquétipo no futuro?

 Reflita: 

– Procuro formas novas de melhorar-me a mim mesmo.

– É essencial manter a minha independência.

– Sinto muitas vezes uma inquietude que me impulsiona para algo novo.

– Sinto que um mundo/uma vida melhor me aguarda algures.

– Procuro sempre ”pastos mais verdejantes”.

– O ato de procurar por algo é tão importante como o encontrá-lo.

– Procuro continuamente o sentido da vida, a verdade por detrás das aparências.

 Se respondeu maioritariamente SIM, é uma/um BUSCADORA/BUSCADOR!

 A transformação de crisálida em borboleta é tradicionalmente um símbolo de renascimento espiritual – a passagem dum nível de consciência apenas identificado com ego, para outro mais expandido, em que a vida integra a dimensão espiritual. Muitas pessoas hoje canalizam o impulso de ascender, para a vida académica, profissional, atlética. Este nível de consolidação e realização do ego é saudável e necessário, tanto quanto explorar o mundo, expandir horizontes de vida, ganhar conhecimento. Quando amadurecemos, o arquétipo da/do BUSCADORA/BUSCADOR regressa num nível mais profundo, onde o chamado espiritual requere de nós, a capacidade de transcender o Eu e experienciar uma unidade cósmica existencial – renascer para a nossa condição divina imanente/transcendente. Esta é a derradeira morte e renascimento da/do BUSCADORA/BUSCADOR.

 Quem busca, sempre alcança!

Doce abraço,

 Vera Faria Leal

Escritora, Astróloga, Especialista em Desenvolvimento Humano.

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