Contributos para uma nova consciência

Por Vera Faria Leal

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Vivemos uma crise civilizacional há muito anunciada pela Astrologia Mundial que estuda a evolução das sociedades humanas a partir dos ciclos dos planetas lentos – Urano, Neptuno e Plutão. A interpretação daqueles ciclos e a sua mútua intersecção permite antever um sentido profundo para as movimentações daquelas sociedades e aferem um padrão de regularidade dentro do caos/aleatoriedade aparente das circunstâncias. A Astrologia mundial revela a proposta oferecida à consciência da humanidade em cada geração e era, clarificando os desafios a superar, indicando as áreas sobre as quais incide o maior foco de transformação e fornece-nos um inestimável guião planetário que aponta o norte do futuro, como uma bússola orientadora da evolução das consciências e, por inerência, dos destinos que formos capazes de co-criar para nós mesmos.

 

PLUTÃO EM CAPRICÓRNIO OU A QUEDA DAS ESTRUTURAS PATRIARCAIS

 Estamos a adentrar a era de Aquário onde os ideais que começam por ser valores espirituais da IGUALDADE, LIBERDADE, FRATERNIDADE, serão gradualmente trazidos desde as mais elevadas esferas da consciência até à manifestação social; sim, uma era dura cerca de 2.000 anos; é verdade que ainda agora começou. E na perfeita sincronicidade cósmica, o advento de futuras comunidades humanas mais solidárias, enraizar-se-á na profunda transformação que estamos apenas a  começar a viver. Quando Plutão entrou em Capricórnio (início de 2009) a bolsa americana tremeu; a partir daí, a história recente conta. Os símbolos desta civilização que agora se desestrutura – poder económico dominante sobre a política e os estados, corporativismo, capitalismo selvagem – terão que “morrer” para colectivamente renascermos para uma outra forma de vivermos as sociedades humanas. E Plutão ficando em Capricórnio até cerca de 2024, continuará a fazer o seu trabalho demolidor: a tensão e a crise são o motor do processo de transformação do velho para o novo paradigma; por isto a crise é sempre dinâmica e requer novas decisões e soluções. Ela foi anunciada pela Astrologia há muito e ficará o tempo necessário para que se enraíze na consciência colectiva, o impulso da renovação das sociedades humanas. Make no mistake: só podemos andar para a frente, descobrindo conjuntamente um caminho menos percorrido… ou talvez não:

 

UM CAMINHO JÁ PERCORRIDO: O PARADIGMA D@ VENCED@R-VENCED@R

A História foi mal contada nas escolas, quando nos ensinaram sobre os “bárbaros” da pré-história (onde estão os bárbaros agora?). Houve um tempo na história muito antiga da humanidade, cerca de 30-000 e 3.000 A.C. em que a Grande Deusa ou Deusa Mãe regia toda a vida, o mundo dos homens e das mulheres. Houve sociedades no Neolítico que floresceram cultural e socialmente, e o paradigma vigente era o de vencedor-vencedor, o da cooperação, por oposição ao paradigma patriarcal (que reinou até aos nossos dias) do vencedor-vencido, ou da competição feroz.

A arqueóloga Maria Gimbutas descreve-as como sociedades agrícolas pacíficas que se dedicavam também ao comércio e às artes, onde não existia a hierarquização social própria das sociedades patriarcais que a substituíram, mas sim igualdade de géneros (mulheres e homens eram todos filhos da Deusa). Estas sociedades possuíam uma cosmovisão profundamente associada à sacralização de toda a vida, aos ciclos da Grande Deusa, da Lua, da mulher, da natureza, da consciência e de todos os seres vivos. A partir da Idade do Bronze (3.300 ac) e sobretudo mais tarde, na Idade do Ferro – coincidindo com o advento da Era astrológica de Carneiro (2.000 AC) – dá-se gradualmente o declínio destas sociedades e uma importante mudança de paradigma, que permanece até hoje, acontece nas sociedades humanas. As sucessivas invasões das tribos “kurgas”, tribos guerreiras e caçadoras vindas do mar Cáspio e do Mar negro, dizimaram e transformaram radicalmente a vida pacífica dos povos adoradores da Deusa. A civilização da espada substituiu a do cálice. O mito original do divino feminino é intencionalmente deturpado ou destruído; o primado da virilidade (força física, dureza, afirmação violenta) substitui a feminização do espiritual. Ao mesmo tempo em que as sociedades se tornam mais belicosas, hierarquizadas, intolerantes e competitivas, os Deuses masculinos, patriarcais, “destronam” a Grande Deusa, usurpando as suas qualidades, características e poder. Uma nova espiritualidade e uma nova cosmovisão se impõem durante milénios, pela lei do mais forte no domínio patriarcal obscurantista, polarizado no yang, no fazer, no conquistar, e nos seus sucedâneos que eternizam todas as formas de guerra e de pilhagem predatória entre a humanidade e a Terra (como se não partilhássemos um destino comum).

 

Esta crise global oferece-nos a extraordinária oportunidade de reintegrarmos o Feminino/Yin em todas as suas dimensões: dentro de nós simboliza a ligação à Alma, ao mais profundo e essencial, perdidos que estamos do nosso tesouro de harmonia, sabedoria e sentido. Representa a forma de funcionamento do hemisfério direito do cérebro, o holístico, não verbal, intuitivo, que fornecerá as soluções mais criativas – porque mais inclusivas –  para os nossos problemas. Fora de nós representa muito, a adopção das sínteses capazes de dar resposta às feridas colectivas, inspiradas pela mudança do caducado paradigma vigente, para o de vencedor-vencedor. Temos que trazer para a Vida uma verdade maior, uma integração mais plena entre razão e sensibilidade e a noção mais real, de que estamos todos interconectados na mesma proposta de destino e o que fizermos, deve ser cada vez mais orientado para “o maior bem de todos envolvidos”.

 

ÚRANO EM CARNEIRO OU O CHAMADO PARA CADA UM DE NÓS SE REINVENTAR

Úrano em Carneiro até 2018, está a chamar-nos a fazer o processo de individuação, de sabermos quem somos e de termos a coragem de fazer as escolhas decorrentes dessa consciência e fidelidade. Quem és tu? Como lidas com os teus paradoxos? Como os podes integrar, ou resolver criativamente os teus próprios conflitos? Como enfrentas o teu medo? Que farias se não tivesses medo? Quais são os sonhos da tua Alma? O que é que queres da Vida? O que é que a Vida quer de ti?

As quadraturas entre Plutão e Carneiro até cerca de 2015 vão potenciar a manifestação de tensões crescentes entre: estados, estados versus “povo”, dominadores versus dominados, poder/sistemas instituídos versus novos líderes e sistemas. É preciso ir para além do medo de perder; só renasceremos se morrermos para o que conhecemos até aqui como “seguro” e se tivermos a coragem-amor de não resistir à força da Vida e de ousar assumir /mudar/criar o que é necessário.

 

O ALINHAMENTO GALÁCTICO OU O NASCIMENTO CÓSMICO

O alinhamento galáctico é o paralelo do Sol no Solstício de Inverno de 2012 com o centro da Via Láctea, no Equador galáctico (linha análoga ao Equador terrestre que divide a nossa galáxia em duas partes). Um alinhamento com tais características acontece uma vez a cada 26.000 anos e coincide com o fim do calendário Maia. Uma vez mais, trata-se de descodificar a mensagem esotérica, simbólica, relativa à dimensão espiritual, invisível aos olhos físicos (o essencial será sempre invisível aos olhos?). Em termos de mitologia maia, a Via Láctea representa a Grande Mãe Cósmica – Ela de novo! – a partir da qual toda a vida nasceu e o seu centro representa o grande útero cósmico. Este alinhamento simboliza o início de uma nova era e ciclos evolucionários. Dizemos que “o tempo anda acelerado”: para onde é que ele nos quer levar? Será que tu estás preparado para despertar? Qual é o teu ponto de partida para essa viagem? O ego? a divisão? A intuição? A rendição interna?

 

PORTUGAL, O MITO FUNDADOR E A CRISE

“Portugal é, foi sempre, uma nação de milagre, de poesia”. Almeida Garrett

O mito contem códigos capazes de responder ao anseio da Alma do colectivo; vai ao encontro da preocupação colectiva essencial de um povo: a busca do seu sentido, transversal ao passar do tempo. O maravilhoso de que foi revestida a vitória de Ourique e a “predilecção divina” da dispensatio coelestis quando D. Afonso Henriques recebeu do próprio Cristo a missão de guiar os cristãos, à frente do império português, transformou-se em símbolo e em mito. O reino, obra humana, assumiu também um carácter sagrado que lhe conferia uma garantia especial de indemne continuidade na história.

O cerne do mito de Portugal está na permanente abertura de si à interpretação das gerações, e acredito que está na hora de volvermos à sua epifania, nestes momentos em que talvez não saibamos onde nos encontramos, mergulhados que estamos nas águas profundas da nossa subjectividade pisciana. Portugal Pisciano, é preciso despertar da heresia/ilusão da separatividade e cumprir o quinto império: convoca a tua Alma e sabe que o teu destino agora, é outro MAR; são os oceanos espirituais que precisas conquistar. Cuidado, porém: Neptuno entrando em Peixes em 2012 pode, na sua polaridade negativa, aumentar a ilusão da salvação que vem de fora; pode inflacionar o fascínio por “caminhos espirituais tão fáceis e glamourosos quanto perigosos e alienantes”.Já não funciona “comprar os mitos alheios” como o do materialismo que, de resto, já nos deu o que tinha a “dar” (desafortunadamente…) Para unirmos o céu à terra, para encontrarmos o graal/tes-ouro da integração plena, precisamos adentrar profundamente a terra-matéria e lidar honestamente com o nosso chumbo/ego e com todas as questões humanas que nos cumpre resolver, em escolhas cada vez mais lúcidas, conscientes e inclusivas. Só podemos voltar a dar novos mundos ao mundo, quando pudermos re-conectar com a nossa própria Alma, e dela trazer os seus tesouros de sabedoria, cura e de sentido Maiores.

“Deus quere, o homem sonha, a obra nasce.

Deus quiz que a terra fosse toda uma,

Que o mar unisse, já não separasse.

Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,

Clareou, correndo, até ao fim do mundo,

E viu-se a terra inteira, de repente,

Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou creou-te portuguez.

Do mar e nós em ti nos deu signal.

Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.

Senhor, falta cumprir-se Portugal!”

MENSAGEM de Fernando Pessoa

 

O trânsito Astrológico de Saturno no Mapa de Portugal

Portugal atravessa trânsitos (configurações planetárias) muito exigentes; são necessárias, humildade e aceitação para atravessar este momento de indefinição de identidade, de desintegração de referências. Saturno (o planeta da re-estruturação, do destino a construir, da responsabilidade pelas lições cármicas que temos que aprender) está a transitar a casa IV de Portugal, relacionada com o inconsciente, o mais secreto, a ancestralidade/raízes, a derradeira obscuridade, o ponto a partir do qual nos podemos, 1º:

– Pacificar com o nosso passado;

– Reemergir gradualmente com uma consciência clara da identidade própria (por reporte à identidade ancestral, herdada)

– Renascer depois do “sofrimento” do parto.

 

Este trânsito “mergulha-nos” no mais profundo, para refazermos as fundações e origens: quem fomos? Quem somos agora? Onde estamos ancorados? Como podemos reinventarmo-nos a partir da nossa herança comum? Como povo, temos que “escavar psicanaliticamente” no passado para nos podermos reinventar, redescobrir, reestruturando as fundações emocionais e amadurecer. Resgata, Portugal, a tua Alma! A resposta não virá de fora, mas do interior; só virá dos valores mais profundos do Ser Portugal. Os nossos poetas, artistas e músicos sempre cantaram a alma portuguesa e hoje, mais do que nunca, as Artes são necessárias para nos recordar, colectivamente, a essência de que somos feitos. Artistas do meu país, ajudem-nos a despertar a memória do que já sabemos!

A jornada arquetípica do Herói/Heroína, símbolo do processo humano de individuação, auto-realização ou identificação com a Alma, tem vários estágios, como os diversos mitos e contos de fadas narram. Quando Saturno transita na casa IV astrológica, ele anuncia o momento, nessa demanda, em que o Herói/Heroína, coloca a sua vida em risco, fere o dragão, resgata o “tesouro” e traz de volta, num processo gradual de transformação, amadurecimento e fortalecimento dos seus dons e talentos, que ocorre nas casas seguintes, a bênção à humanidade. É nesta fase que estamos, colectivamente (admira que nos sintamos “perdidos”?).

Dar um salto no desconhecido implica acreditar e avançar sem estar ainda seguros do resultado. Precisamos abandonar antigas referências limitadoras,  valorizar os nossos verdadeiros talentos ousando corajosamente dar ao mundo o que temos realmente de único, e não uma cópia insegura do que os outros são. Ainda estamos aquém do nosso valor e contributo no concerto das nações, mas precisamos clarificar melhor para nós próprios, que papel é esse. As respostas mais importantes a dar, virão desta capacidade extraordinária de nos reinventarmos, depois de termos “batido no fundo” (até final de 2012).

 

A NOVA CONSCIÊNCIA

Acredito que a crise civilizacional que vivemos pode constituir um importante passo em frente no desenrolar da era Aquariana. É o tempo para uma emergente consciência colectiva se afirmar, porque só uma consciência mais ampliada pode dissolver o medo. A consciência colectiva deve, mais do que nunca, mobilizar-se e intervir, comprometer-se com iniciativas, concretizar as suas soluções, implementar um novo sentido de unidade lembrando a nossa origem espiritual comum (o que permite o respeito pela diferença). Espiritualmente, cresce extraordinariamente a consciência de que somos responsáveis não só perante as leis civis e religiosas, mas também perante as leis cósmicas, universais; necessitamos de uma visão mais alargada, uma visão cósmica, para as encruzilhadas da nossa condição humana. Todos estamos sujeitos à Lei cósmica de causa e efeito, para além de credos, raças ou status, e ela responsabiliza-nos pelas consequências dos nossos pensamentos, emoções e acções e recorda-nos que colheremos o que construirmos hoje. Desejo que saiba fazer a diferença na sua Vida e declaro o meu Amor a Portugal!

 

“O dia há de nascer
Rasgar a escuridão
Fazer o sonho amanhecer
Ao som da canção
E então:
O amor há de vencer
A alma libertar
Mil fogos ardem sem se ver
Na luz do nosso olhar
Na luz do nosso olhar
Um dia há de se ouvir
O cântico final
Porque afinal falta cumprir
O amor a Portugal
O amor a Portugal!”

Dulce Pontes: Amor a Portugal

 

Por Vera Faria Leal 2011 – Todos direitos reservados   

Astróloga, Escritora, Oradora e Investigadora de Psicologia Espiritual.

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harmoniaviva@gmail.com

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